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Petrópolis em Cena | produções culturais
 
 
 
   .: Sétima Arte


Radha Barcelos
  colunista@petropolisemcena.com.br


 
A ORIGEM

Blockbuster psicanalítico 

No top 3 dos assuntos mais abordados nas rodas de conversa ultimamente está o filme A origem, um dos mais aguardados para o segundo semestre. O longa, que já aparece entre as maiores bilheterias do ano, incitou discussões ligadas a complexidade de sua trama, que trata de um tema bastante abstrato, os sonhos. O protagonista, interpretado com vigor por Leonardo DiCaprio, é um ladrão de idéias que as extrai das mentes das pessoas, enquanto elas sonham. O problema começa quando ele recebe uma missão de fazer o trabalho inverso, em vez de roubar, implantar uma idéia na cabeça de alguém. O nome original do filme, Inception, diz respeito justamente ao movimento de retornar a origem, a gênese, para conseguir realizar essa tarefa, já que a idéia para amadurecer no indivíduo tem que parecer que nasceu no próprio e por isso, deve ser o mais crua possível e inserida na camada mais profunda do subconsciente.
Falando assim o argumento parece complexo, mas o diretor tratou de desenvolvê-lo minuciosamente para que ficasse compreensível, tanto que levou 10 anos nesse trabalho. Com a ressalva de que falamos do cineasta Christopher Nolan, velho conhecido dos cinéfilos por suas tramas não lineares, cujo maior exemplo é Amnésia, que inclusive na época de seu lançamento também causou discussões. A origem até que não sofre tanto deste mal, que na maioria das vezes é apenas um recurso estilístico sem significado real. Quando é acometido, se justifica pelo fato do campo semântico explorado ser onírico, o qual permite maior liberdade. É importante considerar também que se trata de ficção e isso implica em falhas. Se não houvesse falhas no roteiro seria realidade. Como no deja vu de Matrix, um “erro” que denuncia a ficção daquele mundo.
O filme inclusive tem sido muito comparado com a obra dos irmãos Wachowski devido ao seu caráter “blockbuster inteligente”. De fato, ambos são superproduções com elencos estelares e roteiros desenvolvidos em cima de alguma base científica. São verdadeiramente filmes de ficção científica. Enquanto Matrix constrói sua alegoria sob pilares filosóficos, evocando teorias platônicas, A origem utiliza a psicanálise como embasamento. Estão lá o subconsciente, os sonhos, a culpa e até o modelo da cebola freudiano (em que o sujeito seria feito de camadas como as da cebola) aplicado na estrutura da história com um sonho dentro do outro. Os dois filmes divergem porém nas cenas de ação. Matrix visa o impacto visual através dessas cenas, todas high tech. Já o filme de Nolan necessita desse tipo de cena para contar a história, além de ser o momento no qual o espectador relaxa para absorver a tonelada de informação que acabara de receber. Elas são justificáveis e mais elegantes, menos violentas, seguindo um estilo agente secreto 007 e mais analógicas também, como a fantástica cena da gravidade zero filmada dentro de uma câmara simuladora.
Apesar do filme ser formado por várias camadas, o diretor conseguiu diferenciá-las de tal modo, através da linguagem cinematográfica, que é só estar atento para compreendê-las. Além do mais, a personagem da atriz Ellen Page, a jovem arquiteta Ariadne representa o espectador, aquele que não conhece nada à respeito daquele universo e por isso algum outro personagem deve introduzí-lo, o que torna o filme bastante autoexplicativo. As discussões e indignações surgidas, principalmente devido ao final aberto, se devem não por causa de uma suposta não clareza de Nolan, mas sim pelo próprio espectador, desacostumado ao raciocínio desde que o cinema se expandiu de sétima arte para atividade de lazer.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Michael Caine, Tom Berenger...
Pais: EUA/Reino Unido
Gênero: ficção científica
Duração: 148 min

 

 Dzi Croquettes

 Inclassificáveis

Um orçamento baixo, uma equipe reduzida, nenhum patrocínio e uma dupla de diretores empenhados em contar uma história fascinante. A história de 13 homens que nos anos 70 encantaram o Brasil e a Europa com seus saltos altos e cílios postiços gigantes, corpos esculturais e peludos, com a precisão e leveza de seus movimentos e irreverência de suas apresentações. Em tempos de AI5 eles eram o ponto fora da curva. Direita ou esquerda, homem ou mulher, complacente ou guerrilheiro. Eram tantos os rótulos, tantas as escolhas obrigatórias, que eles escolheram a não escolha. Como dizia a “mãe” do grupo, Wagner Ribeiro: “não somos homem, nem mulher, somos gente.” Eram inclassificáveis. Sua única escolha foi o amor, pois “só o amor constrói”, outra máxima da sábia “mãe”. E foi com muito amor e dedicação que os diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez fizeram o documentário Dzi Croquettes.
O grupo teatral que levava o mesmo nome do filme caiu no esquecimento e lá ficou por anos. As novas gerações nunca tinham ouvido falar e mal sabiam a influência que eles tiveram em muitas expressões artísticas que fazem sucesso hoje, como o gênero besteirol, por exemplo. Em um movimento que vem se tornando comum no cinema documental brasileiro, cujo último grande ícone cultural resgatado foi Simonal, Tatiana e Raphael se juntaram então, para jogar luz novamente sobre os Dzi, os apresentando às gerações mais novas e fazendo as mais velhas se emocionarem lembrando.
O documentário se legitima através de consistentes depoimentos de artistas consagrados como a “madrinha” Liza Minnelli, Claudia Raia, Miguel Falabella, Amir Haddad, Aderbal Freire Filho, Marília Pêra, Nelson Motta, Ney Matogrosso, Gilberto Gil e vários outros que se dividem entre os que conviveram com eles e os que foram influenciados. A ótima edição alterna as entrevistas com os números musicais citados, dando dinamismo ao filme, mas deixa o espectador curioso para vê-los por completo. Fica visível a pesquisa minuciosa e o capricho que os cineastas tiveram para tratar do assunto, tanto que isso já vem se revertendo em prêmios mundo a fora. O documentário já levou 10 e está muito perto de se tornar o mais premiado do Brasil.
É impossível assistir ao filme e não se envolver com aquela adorável loucura. Os Dzi Croquettes eram a expressão brasileira da androginia, que começava a despontar lá fora, eram os nossos David Bowie e Alice Cooper, mixando a força do macho e a graça da fêmea. Estavam para o teatro, assim como os midnigths movies do John Waters no Village (NY) estavam para o cinema, provocando no público uma sensação de estranheza misturada com deslumbramento típicas de movimentos vanguardistas. E até hoje o são. Muitos ainda não entenderam o que viram. Outros viraram tietes, termo cunhado por eles mesmos que não se referia apenas a ser fã, mas à opção de levar um estilo de vida Dzi porque a arte ultrapassava os palcos e invadia a vida.
Da mesma forma, é irresistível para a diretora Tatiana Issa participar do enredo do filme. Filha do cenógrafo Américo Issa, que fazia parte da equipe técnica do grupo na época, ela passou a infância entre os “palhacinhos”, como ela os chamava dada a maquiagem exagerada. Assim como também é impossível para essa colunista que lhes escreve, ser imparcial em suas análises pelo mesmo motivo da idealizadora do documentário. Todos querem de algum modo fazer parte da família Dzi.
 
FICHA TÉCNICA
Diretor: Tatiana Issa e Raphael Alvarez
Elenco: Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Cláudio Tovar, Benedicto Lacerda, Rogério de Poly, Liza Minnelli, Marília Pêra, Nelson Motta, Miguel Falabella, Claudia Raia, Betty Faria...
Pais: Brasil
Gênero: documentário
Duração: 110 min
 
 

  

 

 

 

 

 

 


 
 











 
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