Em meio à lógica acelerada da produção industrial e das relações cada vez mais automatizadas, uma proposta que valoriza o tempo, o afeto e a criação manual ganha destaque em Petrópolis. Nos dias 20 e 27 de março, o Centro de Cidadania LGBTI Duda Collins, na Serrana II, recebe o Café com Bordado, uma oficina que une arte têxtil, economia criativa e mobilização cultural.
A atividade é uma realização do Instituto Caminho da Roça, por meio do Programa Nacional dos Comitês de Cultura (PNCC), iniciativa do Governo Federal que vem fortalecendo redes culturais em todo o país. Mais do que uma oficina, o encontro propõe uma experiência coletiva de troca de saberes, expressão artística e fortalecimento comunitário — especialmente para a população LGBTQIAPN+.
O Programa Nacional dos Comitês de Cultura é uma iniciativa do Ministério da Cultura do Brasil que tem como objetivo fortalecer o acesso à cultura e a participação social nas políticas culturais em todo o país. Por meio dos comitês, o programa promove formação, articulação e incentivo a iniciativas que reconhecem a cultura como direito fundamental e instrumento de desenvolvimento social e econômico.
À frente da oficina está o artista têxtil e bordadeiro Gustavo Carneiro, que desenvolve um trabalho que conecta arte, ancestralidade e resistência. Para ele, bordar é mais do que técnica: é linguagem, memória e posicionamento político.
“A arte de bordar ultrapassa nosso tempo presente, resgatando nossa ancestralidade artística nacional e internacional. Na Oficina Café com Bordado, iremos pôr em prática essa produção com fios que podem atravessar tecidos e sentimentos.”
Gustavo chama atenção para o contraste entre o fazer manual e a lógica produtivista contemporânea:
“Vivemos em um mundo onde a produção rápida, industrializada em larga escala é priorizada, fazendo desastres no universo. Esquecemos o poder que está na delicadeza de cada expressão de sentimentos e vivências relatadas através do que se produz à mão.”
A proposta da oficina também dialoga com referências históricas e simbólicas do bordado, como a resistência popular e a construção de narrativas coletivas:
“Assim como João Cândido, grande atuante na Revolta da Chibata e também ligado à produção artística, vamos marcar nossas vivências nas intervenções dos fios nos tecidos. As cores das linhas e os entrelaçados afirmam nossas experiências de vida. Retomamos referências como a Tapeçaria de Bayeux, reinventando o sentimento de luta e resistência.”
Em um contexto de violência e exclusão que ainda atinge a população LGBTQIAPN+, a arte surge como ferramenta de enfrentamento e transformação:
“O bordado pode ser um levante de resistência, ajudando a estancar o derramamento de sangue na nossa comunidade. É também uma possibilidade concreta de geração de renda e autonomia.”
A oficina acontece em um espaço que é referência no acolhimento e na promoção de direitos. Para a coordenadora do Centro, Karine Vieira de Almeida, a iniciativa reafirma o papel da cultura na construção da cidadania plena:
“Abrimos as portas do Centro de Cidadania para a Oficina de Bordado com a certeza de que a cultura, a arte e os afetos que se entrelaçam nesse encontro são fundamentais para a plena cidadania da população LGBTI+. Para nós, é a expressão absoluta do acolhimento.”
Além do caráter formativo e cultural, o Café com Bordado também se apresenta como uma oportunidade concreta de geração de renda extra, valorizando saberes manuais, incentivando o empreendedorismo criativo e fortalecendo a economia solidária nos territórios.
Com inscrições abertas via WhatsApp, a expectativa é reunir pessoas interessadas em aprender, compartilhar experiências e transformar linhas em histórias — e histórias em resistência.
Serviço:
Café com Bordado – Oficina de Bordado e Economia Criativa
Datas: 20 e 27 de março
Horário: 14h
Local: Centro de Cidadania LGBTI Duda Collins – Serrana II, Petrópolis
Inscrições: (24) 2019-4856


Postar um comentário
Gostou da matéria? Deixe seu comentário ou sugestão.