Neste fim de semana, a UNIFASE promoveu a oficina "Eu e os Eventos Climáticos – Como mitigar com o meu exercício profissional?", conduzida pelo professor Paulo Sá, especialista em Saúde Planetária e Cultura Regenerativa. A atividade integrou a programação da 4ª Jornada da Virada Climática, que ao longo de um mês oferece uma agenda variada, gratuita e aberta ao público, com debates, oficinas e ações em território voltados à saúde planetária. 


A proposta do encontro foi provocar uma reflexão prática: de que maneira cada profissional, a partir do seu campo de atuação, pode contribuir para reduzir impactos ambientais e enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. Em entrevista, o professor Paulo Sá aprofundou essa discussão, destacando responsabilidade individual, ação coletiva e o papel transformador da educação diante da crise climática. 


O que significa, na prática, o tema "Eu e os Eventos Climáticos"? 

Paulo Sá: É um convite à consciência de que ninguém está fora da crise climática. Um evento extremo em um local, como os recentes registros em Minas Gerais, é um sintoma de desequilíbrios que afetam todo o planeta. Estamos conectados por uma rede de relações sociais, econômicas e ambientais que opera em escala global e também no cotidiano das cidades. Mesmo quando não somos atingidos diretamente, fazemos parte desse contexto e de seus impactos. A proposta é mostrar que ninguém está fora da crise climática. 


Como cada profissional pode contribuir para mitigar os impactos das mudanças climáticas? 

Paulo Sá: Cada profissional atua a partir de um nicho específico de conhecimento. Eu entendo que essa atuação nunca é neutra: ela pode aumentar, reduzir ou mitigar problemas ambientais. Por isso, é essencial ter consciência das próprias práticas, orientar corretamente, reduzir desperdícios e fazer escolhas mais responsáveis. Um exemplo é priorizar materiais menos poluentes ou informar sobre o uso correto e o descarte adequado de produtos, diminuindo riscos e evitando danos desnecessários ao meio ambiente. 


De que forma diferentes áreas do conhecimento podem atuar juntas nesse enfrentamento? 

Paulo Sá: Eu considero impossível enfrentar questões ambientais de forma unilateral. Os problemas ambientais são sistêmicos. Solo, floresta e ecossistemas funcionam como sistemas interligados, com múltiplos elementos atuando ao mesmo tempo. Da mesma forma, quando lidamos com um problema ambiental, precisamos reunir diferentes saberes. Cada área do conhecimento oferece ferramentas específicas. Quando elas atuam juntas, ampliam nossa capacidade de compreender o problema de forma sistêmica e de encontrar soluções mais eficazes. 


O que muda quando saímos do discurso e partimos para a ação? 

Paulo Sá: A ação nos tira do campo da idealização e nos coloca no campo da responsabilidade concreta. Ao partir para a ação, eu passo a entender meus próprios limites e possibilidades. Em vez de apenas apontar falhas externas, começo a perceber o que consigo transformar no meu cotidiano. Também descubro que algumas soluções que pareciam boas no discurso podem não funcionar tão bem na prática. Além disso, há decisões que não estão sob nossa governabilidade individual, pois envolvem escalas institucionais e governamentais. 


É possível gerar impacto real com pequenas atitudes no exercício profissional? 

Paulo Sá: Com certeza. O ser humano não está separado da natureza; ele é natureza. Toda ação, por menor que pareça, gera impacto. Eu gosto da imagem da pedra lançada no lago: ela cria ondas que se expandem. Da mesma forma, pequenas atitudes profissionais produzem efeitos que se espalham no entorno e influenciam outras pessoas e processos. Não se trata de dizer que apenas pequenas ações resolvem tudo, mas elas alimentam grandes transformações. Quando escolho um procedimento menos danoso ou opto por um produto mais responsável, estou gerando um impacto que pode se ampliar muito além do que consigo enxergar. 


Estamos atrasados nas respostas ou ainda há tempo para reverter parte dos danos? 

Paulo Sá: Estamos atrasados, mas ainda é possível reduzir impactos, através de decisões e ações imediatas. A natureza tem capacidade de regeneração e a pandemia de Covid-19 mostrou como, quando a atividade humana desacelera, a natureza responde rapidamente. Isso demonstra que o sistema natural tem uma capacidade de regeneração que muitas vezes subestimamos. 


Como preparar estudantes e futuros profissionais para esse cenário climático cada vez mais desafiador? 

Paulo Sá: A formação precisa estar alinhada à realidade atual e às soluções que estão sendo construídas. Eu acredito que devemos trabalhar a corresponsabilidade, tanto no exercício da cidadania quanto no exercício profissional. É essencial estimular nos jovens uma reflexão sistêmica, baseada em saberes multidisciplinares e multiprofissionais. Não sairemos dessa crise de forma isolada ou apenas com soluções tecnológicas espetaculares. A saída é coletiva. 


Qual é o papel das instituições de ensino, como a UNIFASE/FMP, nesse debate? 

Paulo Sá: A instituição de ensino é, antes de tudo, formadora. E educação é transformação. Não se trata apenas de reproduzir a cultura existente, mas de contribuir para torná-la melhor. Toda instituição de ensino, da educação infantil ao ensino superior, tem essa responsabilidade. No caso da UNIFASE/FMP, situada em um município marcado por eventos climáticos extremos, essa responsabilidade é ainda mais evidente. Não é possível formar um profissional em Petrópolis sem que ele reflita sobre os processos climáticos em curso. Por isso, assumimos essa pauta como eixo estruturante, com o objetivo de fortalecer uma cultura regenerativa, capaz de gerar esperança e soluções concretas para o futuro.



A programação completa da 4ª Jornada da Virada Climática pode ser conferida no site.

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