Alice Puterman, escritora / Divulgação 


Há obras que nascem da vontade de contar uma história. Outras surgem como uma forma de permanecer. É nesse segundo caminho que se insere Candura, livro de estreia de Alice Puterman, jovem autora de Petrópolis que transforma sua trajetória em uma narrativa poética marcada por temas como violência de gênero, saúde mental e reconstrução.


Escrito ao longo de seis anos, o livro reúne textos produzidos desde a adolescência, período em que a autora começou a utilizar a escrita como forma de elaboração emocional. Sem recorrer a respostas fáceis, a obra propõe um olhar sensível e direto sobre experiências que atravessam a vida de muitas mulheres.

 


Escrita como processo de elaboração

A construção de Candura acompanha um percurso íntimo, no qual a palavra surge como ferramenta de compreensão e permanência. Ao longo dos textos, a autora aborda episódios de violência e os desdobramentos psicológicos dessas experiências, incluindo o diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático.


Mais do que um relato, o livro se apresenta como um espaço de elaboração — onde sentimentos, memórias e conflitos ganham forma e nome. A escrita, nesse contexto, deixa de ser apenas expressão e passa a ocupar um papel ativo no processo de reconstrução.

 


O corpo como território de disputa e resistência

Nos poemas, o corpo feminino aparece como um espaço atravessado por experiências complexas, mas também como lugar de resistência. A autora constrói imagens que transitam entre fragilidade e força, revelando as dificuldades de habitar a própria existência após situações de violência.


Ao mesmo tempo, a obra recusa uma leitura simplificada da dor. Em vez disso, propõe um percurso que envolve enfrentamento, reflexão e, sobretudo, ressignificação.

 


Entre vulnerabilidade e força

Um dos eixos centrais de Candura está na relação entre vulnerabilidade e potência. O título, que remete à ideia de pureza ou ingenuidade, é ressignificado ao longo da obra, questionando percepções tradicionais associadas ao feminino.


A autora também aborda sua vivência como mulher autista, trazendo à tona discussões sobre como diferentes formas de vulnerabilidade podem se sobrepor — e como, ainda assim, é possível construir caminhos de resistência.

 


Saúde mental como eixo da narrativa

A saúde mental aparece como um dos pilares do livro. Ao longo dos textos, a autora reflete sobre processos internos, crises e tentativas de reorganização emocional, sempre com uma linguagem que equilibra intensidade e delicadeza.


Sem romantizar a dor, a obra aponta para a importância de nomear experiências — um gesto que, segundo a própria proposta do livro, pode ser o primeiro passo para enfrentá-las.

 




Lançamento e trajetória

Candura será lançado pela editora Toma Aí Um Poema (TAUP) e terá sessão de lançamento durante a Festa Literária Internacional de Paraty de 2026, um dos principais eventos literários do país.


Nascida em Petrópolis em 2002, Alice Puterman é graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras da UERJ. Autista, encontrou na escrita seu principal meio de expressão desde a infância, construindo ao longo dos anos uma produção que dialoga com temas sociais e experiências pessoais.

 


Literatura como espaço de escuta

Mais do que uma estreia literária, Candura se apresenta como um convite à escuta. Ao transformar vivências em linguagem, a obra amplia o debate sobre violência contra a mulher e saúde mental, contribuindo para que essas questões sejam tratadas com mais atenção e sensibilidade.


Em um cenário em que muitas histórias ainda permanecem silenciadas, livros como esse ajudam a abrir espaço para novas narrativas — e para a construção de outras formas de compreensão.

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