A inadimplência deixou de ser
apenas uma questão de orçamento doméstico para se tornar um problema com
reflexos diretos na saúde, no trabalho e nas relações sociais dos brasileiros.
Pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e
pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise
Pesquisas, divulgada nesta quinta (25) aponta que 86% dos
consumidores com contas em atraso há mais de três meses sofreram danos à saúde
física decorrentes do estresse financeiro. Entre os entrevistados, 69% afirmam
ter um nível de preocupação alto ou muito alto diante das dívidas em atraso
nesse período. São 75,06 milhões de consumidores endividados, número de maio,
um novo recorde de inadimplência no país.
Para o presidente da Câmara de
Dirigentes Lojistas de Petrópolis, Cláudio Mohammad, os números evidenciam que
o endividamento precisa ser tratado com mais atenção por famílias, empresas e
instituições. “A inadimplência não afeta somente a capacidade de compra. Ela
interfere na rotina das pessoas, na saúde emocional, no desempenho profissional
e até na convivência familiar. É uma situação que fragiliza o consumidor e, ao
mesmo tempo, impacta diretamente o comércio, que depende de uma economia mais
equilibrada para manter sua atividade”, afirma.
As sequelas físicas mais
comuns entre os inadimplentes são as alterações no sono, que afetam 64% dos
entrevistados, e as alterações no apetite, relatadas por 52% da amostra. Além
disso, como uma válvula de escape para conter o desgaste psicológico, 41%
admitem descontar a ansiedade em vícios como cigarro, comida e bebidas
alcoólicas.
A carga psicológica gerada
pelas pendências financeiras atinge quase a totalidade dos inadimplentes: 95%
manifestam impactos emocionais negativos. A lista de sentimentos é liderada
pela preocupação constante, citada por 78%, seguida de ansiedade, com 73%,
angústia, com 65%, estresse ou irritação, também com 65%, e culpa, apontada por
64%.
Esse estado de alerta contínuo
transborda para outras esferas da vida cotidiana. No ambiente de trabalho, as
dívidas já comprometem a performance corporativa de 61% dos profissionais. Entre
os trabalhadores inadimplentes, 47% afirmam ficar desatentos ou pouco
produtivos, 42% produzem menos e 38% admitem perder a paciência com os colegas
de equipe.
“Quando a preocupação
financeira ocupa a vida do trabalhador, a consequência chega também às
empresas. A queda de produtividade, a desatenção e o desgaste nas relações de
trabalho mostram que a inadimplência tem um custo coletivo. Por isso, é
importante ampliar o debate sobre educação financeira, consumo consciente e
negociação responsável das dívidas”, observa Cláudio Mohammad.
Nas relações sociais e
familiares, 59% relatam impactos negativos no convívio social. A irritação e a
intolerância com pessoas próximas atingem 48% dos entrevistados, enquanto 58%
afirmam ter perdido totalmente a vontade de sair e socializar. O isolamento é
tão severo que 76% dos devedores já deixaram de comparecer a eventos sociais,
como aniversários e casamentos, por falta de dinheiro para transporte, roupas
ou presentes.
Mudanças no consumo e no comportamento
A entrada na inadimplência
atua como um “choque de realidade” para a maioria, gerando mudanças imediatas
no convívio social e no consumo doméstico. De acordo com a pesquisa, 37% dos
inadimplentes evitam sair com pessoas que incentivam o gasto, mostrando que a
preservação do orçamento passa pelo distanciamento de gatilhos sociais.
O levantamento mostra que o
consumidor prioriza o corte em vestuário, citado por 34%, e em itens
alimentares supérfluos, apontados por 29%, como congelados e bebidas, para
proteger o orçamento essencial.
“O comércio também precisa
compreender esse novo comportamento do consumidor. Em períodos de maior
restrição, a decisão de compra se torna mais racional, há mais pesquisa de
preços e uma preocupação maior com o parcelamento. Transparência nas condições
de venda e diálogo com o cliente são fundamentais para construir relações mais
sustentáveis”, pontua o presidente da CDL Petrópolis.


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