Algumas histórias começam com grandes planos. A da S ou S começou de um jeito bem mais simples: três jovens, alguns discos e a vontade despretensiosa de fazer rock’n’roll em Petrópolis.

 

Em 1985, os irmãos Robson e Percy recebiam Marco e outros poucos amigos todos os domingos à tarde noquarto da casa da família,no bairro Capela. O armário fazia as vezes de bateria, os LPs eram a principal escola e ninguém imaginava que aqueles primeiros acordes dariam origem a uma das histórias mais longevas do rock petropolitano.Quarenta anos depois, a resposta está espalhada por palcos, discos, viagens, fãs e uma coleção de memórias que atravessa gerações.


Muita gente ajudou a construir esse caminho. Seu Ildefonso e dona Elina, pais de Robson e Percy, foram os primeiros grandes incentivadores. Além de abrirem as portas da casa para reunir os amigos, acreditaram no potencial dos filhos. Marceneiro, Seu Ildefonso construiu a primeira guitarra de Percye o primeiro contrabaixo de Robson. Já os primeiros pedais de efeito foram comprados com dinheiro emprestado pela mãe.


“Se chegamos até aqui, é porque tivemos muito carinho, cuidado e incentivo, dentro da nossa casa”, diz Percy guitarrista da banda.


Outro personagem fundamental foi o amigo Robson Castro, dono de uma das maiores coleções de discos de rock da cidade na época. Ele levava os LPs das bandas do momento para que todos pudessem ouvir juntos. Bandas como Van Halen, Rush e Led Zeppelin se tornaram referências para aqueles jovens.


Marco, que tocava gaita, começou a cantar depois que os amigos descobriram que ele havia integrado o Coral Canarinhos de Petrópolis. Em seguida, Nando chegou para assumir a bateria. E assim, nascia a primeira formação da banda. Os ensaios passaram a ser as segundas-feiras, no Quitandinha. Toda semana, os músicos atravessavam a cidade carregando os instrumentos no ônibus lotado, em horário de rush, para ensaiar.  


*SOS, não. S ou S*

O primeiro nome escolhido foi SOS. A intenção era que o nome tivesse a mesma sonoridade em qualquer lugar do mundo. Na hora do registro, porém, veio o problema: a sigla já pertencia à Cruz Vermelha. A solução foi manter o som e mudar a escrita. Nascia a S ou S — sem significado especial, mas com praticamente a mesma pronúncia.


A primeira apresentação aconteceu no Ginásio do Serrano. Não havia multidão, muito menos cachê. Para completar, o show terminou marcado por uma briga no palco com os organizadores.


A S ou S cresceu junto com uma cena musical petropolitana efervescente, em uma época de força do rock nacional e de muitas bandas apostando em música autoral. Esse movimento foi registrado no documentário O Som por Trás da Neblina (disponível gratuitamento no Youtube) lançado em 2024, e que eterniza a história do rock petropolitano da qual a S ou S faz parte.  Entre as músicas autorais que marcaram aquela fase da banda estava “Os Quatro Cantos da Cidade” e “Tanto Faz”que ganharam espaço nas rádios locais.


Vieram novas demos e mudanças de formação.Em 1989, o Nando deixou a bateria e deu lugar a Luiz Ernesto que gravou o 1º LP ‘S ou S’ em 1993. Pouco tempo depois ele se mudou para o exterior e a banda ficou mais uma vez sem baterista.



De “Sônia Regina” à estrada com Celso Blues Boy


Em 1994, sem baterista, os integrantes decidiram seguir como trio. A solução foi uma bateria eletrônica SR-16, carinhosamente batizada de “Sônia Regina”. Durante cerca de quatro anos, a S ou S seguiu tocando com a ilustre “Sônia”, até que, em 1998, apareceu Rodney Morelli. Ou melhor: Rodney foi chegando. E aquela que parecia ser apenas mais uma mudança de formação, deu início a uma parceria de aproximadamente 25 anos.


Em 1998, a banda lançou o CD Marcas na Estrada, já com Rodney na bateria. Mas aquele ano também abriu uma das páginas mais importantes da trajetória do grupo. Por intermédio de Marcos Vianna, amigo e produtor musical,a S ou S conheceu Celso Blues Boy.Os músicos participaram da gravação do álbum “Vagabundo Errante” e acompanharam Celso em turnês pelo Brasil entre 1998 e 2000.Os palcos cresceram, assim como as viagens.


Outro episódio inesquecível aconteceu na Exposição Agropecuária de Petrópolis, no fim dos anos 1990. O Só Pra Contrariar, então no auge de “Mineirinho”, precisava pegar um voo cedo no dia seguinte e pediu para se apresentar antes da banda petropolitana.


“Costumamos brincar que o grupo Só Pra Contrariar abriu um de nossos shows”, diverte-se Robson, baixista da banda.


A brincadeira ficou. Mas, naquela noite, o que também ficou foi um dos maiores públicos da história da S ou S, cerca de 100 mil pessoas!


*Pausas, recomeços e perdas*

A vida seguiu por caminhos diferentes. Marco foi estudar Direito. Robson seguiu carreira no audiovisual. Percy pegou a estrada com Erasmo Carlos. Rodney se dedicou às aulas. Depois de uma pausa, a S ou S retomou as apresentações em 2011 e não parou mais.


Inclusive, desistir da banda nunca foi uma opção pra eles. Quando perguntados se um dia já pensaram nisso a resposta foi: “Sim, mas mudamos de ideia no dia seguinte”.


Em 2023, porém, a banda enfrentou seu momento mais difícil. Rodney morreu em um acidente automobilístico, aos 51 anos. Foram 25 anos de parceria, amizade e histórias compartilhadas. A S ou S precisou de tempo para atravessar o luto. Mas a força dos fãs e amigos fez que a banda continuasse a sua trajetória.A presença de Rodney, no entanto, permanece nas melhores lembranças.


Marcelo Berner, amigo e baterista, ajudou a banda a atravessar os dois primeiros anos depois da perda. Depois, chegou Ronan Faraco, ex-aluno de Rodney e justamente o músico que o próprio baterista havia indicado para uma eventual substituição: “Se algum dia eu não puder tocar por algum motivo e precisarem de substituto, chamem o Ronan. O moleque é bom”, Rodney sempre dizia.


Ronan assumiu oficialmente a bateria em agosto de 2024 e compõe a formação da S ou S que celebra os 40 anos na estrada.


*Uma banda que também pertence aos fãs*


Talvez o maior feito da S ou S não esteja apenas nas quatro décadas de música, mas na capacidade de permanecer unida, reinventar-se diante das mudanças e continuar fazendo parte da vida de quem acompanha a banda.


Rosane Guerra Peixe, profissional de Educação Física, faz parte da família. Uma das fãs n°1 da banda, trabalhava na Rádio Imperial na época em que a banda estava começando e acompanha a SouSaté hoje!


“Nos tornamos amigos. Tenho recortes de matérias, roteiros de shows autografados, camisas e fitas cassete que nem a banda tem mais”, brinca Rosane. Entre os momentos mais marcantes que viveu com a banda, destaca o último aniversário no dia 04 de julho, quando foi chamada no palco para celebrar a data.  


A banda pode elencar ainda outras fãs n°1: HelgaHruza, recordista no quesito frequência nos shows, principalmente no Nucrepe e República da Cachaça, casas que fizeram história em Itaipava e deixaram saudades, e a professora Cintia Ferreira, que mora hoje nos Estados Unidos. 


“Eles marcaram a minha vida de jovem adulta inteira! Não só como uma banda proporcionando uma noite legal, mas como amigos queridos. Como uma das suas ‘perseguidoras’ eu os acompanhava em shows em Petrópolis, Rio de Janeiro, Cabo Frio, Búzios. Criamos muitas memórias boas juntos”, relembra Cintia.


Hoje, olhando para trás, os integrantes resumem o que construíram em três palavras:união, respeito e paixão.


“O maior legado que construímos não está apenas nas canções, mas na família que formamos. Uma família feita de músicos, equipe, parceiros e amigos que entenderam que a verdadeira sintonia acontece muito antes do primeiro acorde e continua muito depois do último aplauso”, resume Robson.


Quando perguntados sobre como gostariam que a S ou S fosse lembrada daqui a mais 40 anos, a resposta é simples:como uma banda que fez parte da história de Petrópolis.


Porque, depois de quatro décadas, a S ou S já não pertence apenas aqueles jovens músicos que um dia começaram a tocar juntos. Pertence também à cidade, aos amigos, aos fãs, às famílias.


“Enquanto houver música, haverá motivos para estarmos juntos. E essa história ainda tem muitos capítulos para serem escritos”, finaliza Robson.


Nas redes sociais da S ou S tem mais história e a agenda de shows “dos meninos”. Segue lá! No Instagram: @bandasous e no Facebook: @sousbanda

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