O jornalista Flavio Berredo correu cerca de 60 quilômetros, partindo do Lago Quitandinha, em Petrópolis, ao Maracanã, no Rio de Janeiro, neste 18 de agosto. A jornada começou às 8h38 e terminou às 17h33, em um total de 8h55min, contando as pausas para alimentação e hidratação. O corredor reviveu grande parte do caminho realizado em 2011, quando saiu de Petrópolis e chegou a Laranjeiras.

 

Há uma diferença entre passar pela BR-040 de carro e percorrê-la correndo. A estrada que, para a maioria das pessoas, é apenas o caminho entre Petrópolis e o Rio de Janeiro ganha outro significado quando os quilômetros são vencidos a pé. O desafio esportivo acabou se transformando também em uma experiência de observação de um território que milhares de pessoas atravessam diariamente sem perceber todas as mudanças existentes ao longo do caminho.

 

A corrida começou na Serra. Ao deixar o Quitandinha, bairro onde Flavio viveu por 30 anos, a paisagem ainda é marcada pelas montanhas e pela vegetação. Mas, à medida que a descida avança, o cenário começa a mudar. “Quando você faz esse caminho de carro, a paisagem passa muito rápido. Correndo, você tem tempo de olhar, de pisar o chão e viver o lugar. Desde as aventuras de 2011, essas questões sociais e ambientais me chamaram muita atenção. Agora passou o filme todo e as reflexões continuam, se aprofundam”, afirma Flavio.

 



A mudança acontece aos poucos

 

Um dos aspectos mais marcantes da corrida é justamente perceber que a paisagem não muda de uma hora para outra. A Serra vai ficando para trás. A presença das montanhas diminui e a ocupação urbana se torna cada vez maior. Depois de Petrópolis, vem a Baixada Fluminense, com suas próprias características e desafios.

 

Duque de Caxias aparece no caminho, e a circulação de veículos se intensifica. Mais adiante, a Avenida Brasil anuncia a chegada a uma outra realidade. É quando a corrida deixa de ser apenas uma travessia entre duas cidades e passa a revelar diferentes formas de viver e ocupar o espaço.

 

“É muito interessante vivenciar esse espaço que, na maioria das vezes, é apenas uma passagem. As pessoas estão ali vivendo, trabalhando, tocado suas vidas. Sempre fui muito bem recebido na Baixada Fluminense e na Avenida Brasil. Só tenho a agradecer mais uma vez”, observa Flavio.

 

Ao longo de 60 quilômetros, bairros, comunidades, áreas comerciais, espaços industriais e regiões residenciais vão se alternando. A infraestrutura não é igual em todos os lugares. As condições de moradia também não.

 

A distância entre a Serra e a capital pode ser medida em quilômetros, mas também pode ser percebida pelas diferenças encontradas no caminho. Durante horas, Flavio esteve exposto às mudanças da paisagem, observando não apenas a estrada, mas as pessoas, os bairros e as diferentes formas de ocupação do território.

 

Há ainda uma mudança que não precisa ser explicada, pode ser sentida: o ar, o barulho, o calor. Na medida em que o corredor se aproxima do Rio, os veículos ocupam cada vez mais espaço. Caminhões, ônibus e carros dividem as pistas. O som dos motores se torna permanente e a poluição passa a fazer parte do ambiente.

 

A corrida coloca o corpo em contato direto com aquilo que o modelo de mobilidade das grandes cidades produz. É uma contradição bastante presente na vida urbana: as mesmas vias que aproximam as pessoas também criam congestionamentos, poluição e uma disputa constante pelo espaço.

 

 

Da Serra à cidade que nunca para

 

Na reta final, a paisagem muda completamente. O verde dá lugar ao concreto. O silêncio da Serra fica distante. O trânsito aumenta e a cidade parece não terminar. Em Benfica, o percurso passou pelo Museu do Samba e pela quadra da Mangueira. Depois, seguiu em direção à Uerj até chegar ao Maracanã.

 

A chegada teve um significado especial para Flavio. O estádio é destino da corrida, mas também representa a relação construída ao longo dos anos com o Fluminense e com o próprio caminho entre Petrópolis e o Rio. “O Fluminense é amor puro, família, sempre inspiração e motivação para mim. Vamos pela classificação também”, afirmou Flavio antes da corrida e de ser premiado com a classificação do time às quartas-de-finais da Libertadores.

 

A ideia dessa travessia nasceu em 2010, depois da primeira maratona de Flavio. Em 2011, ele já havia ido de Petrópolis até Laranjeiras e retornado após quatro meses. Agora conseguiu completar o percurso que era a proposta original.

 

“Celebrar 15 anos depois, homenagear meus pais e reviver grande parte do trajeto de 2011 foi muito especial. Da cidade onde eu moro até a que nasci há um caminho que guarda muitas belezas, riquezas e ainda muitos desafios a serem superados. Apesar de ter me deparado mais uma vez com tantas mazelas sociais e ambientais, senti uma esperança muito grande”, afirma.

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