Os setores de hotelaria e gastronomia serão os que mais sentirão os reflexos para se adequar à reforma tributária, pressionados pela complexidade de suas operações e pela pluralidade de regras que passam a governar o dia a dia desses negócios especificamente. Longe de ser uma transição simples, o novo modelo fiscal impõe uma reengenharia completa que vai desde a separação minuciosa de alíquotas dentro do mesmo cardápio até a reformulação profunda nas relações comerciais com o mercado corporativo. Para empresários e contadores, o momento exige abandonar velhos hábitos de gestão e correr contra o tempo para blindar o caixa antes que as novas regras de retenção automática de impostos entrem em vigor.  Com esta perspectiva, foi promovido na manhã desta segunda (10), no auditório da Firjan, encontro com três especialistas para ajudar contadores e empresários a manter negócios saudáveis com a reforma.


Em formato de bate-papo, com perguntas diretas dos presentes, o evento foi conduzido por três profissionais de destaque nas áreas de gestão, contabilidade e planejamento tributário:  José Miguel Rodrigues da Silva, mestre pela UERJ e coordenador da Comissão de Assuntos Tributários do CRC-RJ; o  economista José Marcos Lopes da Silva, mestre pela Universidade Mackenzie e especialista em gestão de negócios e a contadora e empresária Carla Rittmeyer Fraga, diretora da Associação dos Profissionais da Contabilidade de Petrópolis. Juntos, os especialistas cruzaram suas bagagens técnicas e práticas para desenhar o mapa de sobrevivência das empresas diante do novo cenário fiscal brasileiro.


Fabiano Barros, presidente do Petrópolis Convention & Visitors Bureau e Samir el Ghaoui, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, à frente dos organismos parceiros na realização do evento, estiveram ao lado de Guilherme Caposse, assessor de negócios do Sebrae-RJ e Andréa Amaro, delegada do Sescon-RJ. Os anfitriões no evento alinharam falas sobre a urgência dos dois principais setores do trade turístico se prepararem para uma transição tranquila às novas regras. O encontro também teve  apoio da Federação dos Convention Bureaux do Estado e Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan).  


Idealizado pelo PCVB,  o evento trouxe a visão do seu presidente, Fabiano Barros, que usou suas preocupações como hoteleiro como "motivação para ampliar o conhecimento dos empresários do setor", iniciativa endossada por Guilherme Caposse, do Sebrae-RJ, que classificou a transição como um "grande desafio e o início de um processo que vamos discutir muito ainda". Para enfrentar essa jornada, Andréia Amaro, presidente da Associação dos Contabilistas e delegada do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis (Sescon), destacou a "necessidade de os empresários estarem envolvidos, entendendo e se preparando para as mudanças junto aos contadores", movimento que ganha o respaldo do secretário Samir el Ghaoui ao defender a "responsabilidade do poder público de ser um braço de apoio a todos os setores que movem a economia da cidade" neste momento de transição.


Durante o painel técnico, as particularidades do setor foram o  foco dos debates. José Miguel Rodrigues da Silva alertou que as regras para o segmento, classificado por ele como o "maior empregador indireto da face da terra",  estão entre as mais complexas de toda a regulamentação, usando exemplos práticos da hotelaria e da gastronomia para ilustrar o desafio. Essa profundidade operacional ganhou eco na fala de Carla Rittmeyer da Fraga, que deu um enfoque maior à gestão de estoque e definiu as mudanças como "uma virada de chave inevitável" para as empresas. Fechando o diagnóstico, José Marcos Lopes da Silva enfatizou o peso da contabilidade estratégica ao cravar que, diante do novo cenário, "a organização financeira não é mais uma opção, passa a ser obrigatória" para a sobrevivência no mercado.


No encerramento do encontro, Fabiano Barros deixou um chamado claro à ação para toda a categoria, reforçando que a passividade não é um caminho viável diante da nova realidade fiscal. Para o presidente do PCVB, o momento exige proatividade e uma mudança profunda de postura na gestão dos negócios: "precisa ter interesse amplo do empresário e ter na ponta do lápis as contas e visão estratégica", pontuou, consolidando o sentimento geral de que a preparação imediata será o único divisor de águas entre o sucesso e o prejuízo no novo ecossistema tributário.



Os desafios para hotelaria e gastronomia na Reforma Tributária:

Diante desse cenário desafiador apresentado na palestra, os especialistas apontam que a sobrevivência dos negócios de hotelaria e gastronomia dependerá de uma virada rápida na gestão interna. O primeiro passo urgente é a blindagem do fluxo de caixa, preparando o capital de giro para o impacto imediato do split payment, mecanismo que passará a reter o imposto de forma automática no exato momento da venda por cartão ou Pix. Em paralelo, a operação diária exigirá uma disciplina fiscal quase militar: a exigência e a coleta de notas fiscais de todos os insumos comprados devem ser feitas com a máxima precisão e rastreabilidade, garantindo que a empresa não perca nenhum centavo de crédito fiscal que possa abater a conta final do IVA. Por fim, o setor precisará iniciar uma ampla repactuação no mercado B2B, sentando com clientes corporativos para renegociar os contratos de hospedagem e eventos antes que as novas regras entrem em vigor, mitigando o risco de desistência dessas empresas parceiras que perderão o direito de abater o imposto desses serviços.


Especificamente para o setor de gastronomia, o desafio ganha contornos ainda mais complexos na operação do dia a dia do salão e da cozinha. Os empresários de bares e restaurantes precisarão adaptar seus sistemas de faturamento imediatamente para lidar com a segregação de alíquotas na mesma mesa, exigindo atenção redobrada para diferenciar a comida produzida no local,  que conta com o desconto do imposto, das bebidas alcoólicas e produtos revendidos, tributados pela alíquota cheia. Essa engenharia fiscal exigirá fichas técnicas de produtos impecáveis e um controle rigoroso sobre as taxas de conveniência e delivery.

 

 

Post a Comment

Gostou da matéria? Deixe seu comentário ou sugestão.

Postagem Anterior Próxima Postagem

PUBLICIDADE