Um estudo realizado em
Petrópolis, que identificou sintomas compatíveis com estresse pós-traumático em
67,7% dos pacientes oncológicos avaliados após a tragédia das chuvas em 15 de
fevereiro de 2022, foi aprovado para o Congresso Europeu de Oncologia, na Espanha,
e recebeu certificado de um dos melhores trabalhos apresentados. A pesquisa foi
realizada no Centro de Terapia Oncológica (CTO), referência no tratamento do
câncer em Petrópolis e região, entre os dias 5 e 20 de abril daquele ano, e
avaliou 99 pacientes.
O trabalho foi intitulado
“Sintomas de transtorno de estresse pós-traumático em pacientes oncológicos
após um desastre natural no Brasil” e foi apresentado na quinta-feira (22) em
Barcelona. Dos 99 participantes, 67 apresentaram pontuação igual ou superior a
33 na Escala de Impacto do Evento – Revisada (IES-R), instrumento utilizado
para avaliar sintomas relacionados ao estresse pós-traumático. A pontuação
média foi de 44 pontos, em uma escala que varia de zero a 88.
A pesquisa tem como autor
principal o médico do CTO, Pedro von Sperling Ismael, e conta com contribuição
das médicas Carla Ismael, também do CTO, e Catarina Marchon.
Para Pedro Ismael, o estudo mostra que o impacto de uma tragédia natural vai
muito além das perdas materiais e pode afetar profundamente a saúde emocional
de pacientes que já enfrentam a vulnerabilidade do tratamento oncológico.
"Encontrar sintomas
significativos de estresse pós-traumático em quase 70% dos pacientes avaliados
reforça a importância de integrar o cuidado psicológico ao tratamento do
câncer, especialmente em situações de calamidade”, destaca o especialista.
Sobre a aprovação para apresentar a pesquisa no Congresso Europeu, ele diz que
foi uma oportunidade de compartilhar uma experiência vivida em Petrópolis e
contribuir para uma discussão que vai além da realidade do município.
"Esperamos que esses resultados ajudem a ampliar a atenção à saúde mental
dos pacientes oncológicos em situações de desastre”, disse.
Mulheres apresentaram maior frequência de sintomas
Os resultados apontaram diferenças entre os grupos avaliados. Entre as
mulheres, 76,6% apresentaram pontuação compatível com sintomas clinicamente
relevantes de estresse pós-traumático. Entre os homens, o percentual foi de 51,4%.
A pesquisa também identificou maior frequência de resultados positivos entre pacientes com histórico de transtornos mentais e/ou acompanhamento psicológico. Nesse grupo, 82,9% apresentaram pontuação igual ou superior a 33, ante 59,4% entre aqueles sem esse histórico.
Os impactos da tragédia na saúde
O estudo destaca a importância
de considerar os efeitos psicológicos de desastres naturais entre pessoas que
já enfrentam condições de saúde que exigem acompanhamento contínuo, como o
câncer.
Em Petrópolis, as chuvas de 15
de fevereiro de 2022 provocaram inundações e deslizamentos de terra, em um
episódio que registrou o maior volume de chuva na cidade desde 1932.
A pesquisa indica que
pacientes oncológicos podem apresentar uma carga significativa de sintomas de
estresse pós-traumático após eventos dessa natureza, com maior vulnerabilidade
entre as mulheres. Os resultados reforçam a relevância de avaliar as
necessidades de saúde mental dessa população em situações de emergência e no
período posterior aos desastres.


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