Dra. Carla Ismael


O Outubro Rosa chama a atenção para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento do câncer de mama, que continua sendo o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, desconsiderados os tumores de pele não melanoma. Para o triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos da doença por ano no país. Em 2024, foram registradas 20.849 mortes por câncer de mama no Brasil.


Apesar dos números, os avanços registrados nas últimas décadas modificaram de forma significativa o tratamento da doença. Segundo a oncologista Carla Ismael, do Centro de Terapia Oncológica de Petrópolis (CTO), instituição que atua há 46 anos na cidade no atendimento a pacientes com câncer, um dos marcos importantes dessa evolução ocorreu a partir da descoberta dos receptores presentes nas células tumorais e do desenvolvimento de medicamentos capazes de bloqueá-los.


“O primeiro grande avanço foi a descoberta do receptor HER2 e o desenvolvimento do primeiro medicamento para desativá-lo. A partir disso, por volta dos anos 2000, foi possível começar a tratar uma doença que era muito mais agressiva. Depois vieram inúmeros outros inibidores e, atualmente, também utilizamos a imunoterapia no tratamento do câncer de mama”, explica a médica.


De acordo com Carla, as mudanças alcançaram diferentes áreas do tratamento. A quimioterapia passou por avanços, as cirurgias se tornaram menos agressivas e mais preservadoras da mama e a radioterapia também teve seu tempo de aplicação reduzido. “Muita coisa mudou ao longo dos últimos 30 anos. Hoje podemos dizer que o câncer de mama é uma doença tratável e, mesmo quando é metastático, em muitos casos se tornou uma doença crônica. Temos cirurgias cada vez menos agressivas, com maior preservação da mama, e a radioterapia, que antes podia durar cerca de 40 dias, hoje pode ser realizada em períodos muito menores, de acordo com cada caso”, afirma.


A especialista destaca que o câncer de mama não é uma doença única. Existem diferentes subtipos, com características biológicas e respostas distintas aos tratamentos. Entre eles estão os tumores luminais, os HER2-positivos e os chamados triplo-negativos. “O câncer de mama é tratado individualmente porque, para cada tipo de tumor, há um tratamento. O luminal A, por exemplo, costuma ser menos agressivo e apresenta crescimento mais lento. O luminal B pode apresentar um comportamento mais agressivo, mas também existem tratamentos disponíveis, inclusive no SUS. Já o triplo-negativo é um dos tipos mais agressivos, mas também tem tratamento, com protocolos que podem associar quimioterapia e imunoterapia e que têm apresentado resultados importantes”, explica.


Para a oncologista, um dos principais desafios ainda está no diagnóstico tardio e nas dificuldades de acesso aos exames e à confirmação da doença. “O grande problema do câncer de mama é o diagnóstico tardio. No Brasil, ainda existe dificuldade para realizar a mamografia e também para conseguir uma biópsia. Existem diferenças sociais que fazem com que algumas pacientes tenham mais dificuldade para conseguir o diagnóstico e o tratamento correto”, afirma.


Rastreamento

O Ministério da Saúde orienta o rastreamento mamográfico de rotina para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Mulheres entre 40 e 49 anos também podem ter acesso à mamografia de rastreamento pelo SUS. E diante de sinais ou sintomas suspeitos, a investigação diagnóstica pode ser indicada em qualquer idade.


Além do rastreamento, é importante que as mulheres conheçam o próprio corpo e estejam atentas a alterações nas mamas. A identificação de sinais suspeitos e o acesso rápido aos serviços de saúde são fundamentais para o diagnóstico precoce.


“É importante não ter medo do diagnóstico. Qualquer alteração deve ser investigada e, quanto mais cedo o câncer for diagnosticado, maiores são as possibilidades de um tratamento adequado porque quem procura, cura”, ressalta Carla Ismael.


Fatores de risco

A oncologista também chama atenção para a discussão sobre o aumento da ocorrência da doença em mulheres mais jovens. Segundo o INCA, o câncer de mama é uma doença multifatorial, e a idade é um dos principais fatores de risco. Entre os fatores comportamentais e ambientais associados ao aumento do risco estão o excesso de peso, o consumo de bebidas alcoólicas e o sedentarismo.


“Temos observado um número maior de pacientes jovens e se discute muito o motivo disso. O excesso de peso é um dos fatores que podem contribuir para o aparecimento do câncer de mama, porque o tecido adiposo participa da produção de estrogênio. O estilo de vida também tem influência. É importante buscar uma alimentação mais saudável, consumir fibras, evitar o excesso de carne vermelha e ultraprocessados e praticar atividade física, como caminhadas”, orienta.


Para Carla, o Outubro Rosa tem papel importante não apenas na divulgação de informações sobre prevenção e diagnóstico, mas também na redução do preconceito relacionado ao câncer. “Esse mês é muito importante porque falamos todos os dias sobre o câncer de mama. Isso ajuda a diminuir o preconceito e o medo em relação à doença. Hoje as pessoas têm menos vergonha de falar sobre o câncer do que tinham no passado. É uma doença muito frequente entre as mulheres e é fundamental falar sobre diagnóstico, tratamento e sobre a importância de procurar o médico”, afirma.


Para a médica, o mais importante é não ter medo. “O câncer de mama hoje pode ser tratado de diferentes maneiras e os resultados melhoraram muito. Precisamos cada vez mais apoiar as iniciativas e a campanha do Outubro Rosa para que a informação chegue às mulheres e para que elas procurem atendimento quando necessário”, conclui a oncologista.


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