Virgínia Ferreira *

O que é normal? Costumamos associar o normal ao que é frequente ou àquilo que nos parece ter uma certa regularidade, estabilidade e previsibilidade. Isso quer dizer, estabelecer uma relação entre causa, evento e consequências, formando assim uma ilusão de unidade, algo que não existe. A vida não é assim. Normal é uma ficção. Em outras palavras, é uma realidade imaginária, fantasiosa a qual, tomamos como referência para nos posicionarmos diante de nós mesmos e diante do mundo.


De uma forma mais simplória eu diria até reducionista, normal é tudo aquilo que está em conformidade com a norma ou com o hábito, com o costume de um dado grupo social. Por exemplo: leva uma vida normal segundo os costumes ciganos, leva uma vida normal segundo os costumes cristãos e assim por diante.


Não há um novo, nem velho normal. Não há estabilidade para associarmos a normalidade e, como estamos numa fase de exceção, temos a necessidade de atribuir um nome à fase que vem logo em sequência, como se a fase anterior a essa de exceção fosse velha e a que se sucederá, será nova. Então, poderíamos subentender que, a fase de exceção é uma ponte que liga o velho ao novo ou ainda um ponto de virada, no qual a humanidade irá se despir do velho posicionamento diante da vida e adotará um novo e melhor? Será que toda a humanidade está vivendo a fase de exceção da mesma forma: com os mesmos temores, com os mesmos sentimentos, com as mesmas expectativas, enfim, se posicionando diante dela da mesma forma?


Eu digo que não. As vivências são diferentes, as pessoas são diferentes e assim por diante. Desta forma, para algumas é possível que seja um ponto de virada. Para tantos outros, apenas o término de férias prolongadas. Mas, isso não implica na dicotomia velho x novo, em absoluto. Uma pessoa que hoje tem 50 anos de idade tem lembranças de quando tinha 10, 16, 34, 48 anos de idade. Quando ela fez a passagem da infância para adolescência, da adolescência para fase adulta, da fase adulta para a terceira idade, essa pessoa não deixou de ser ela, apenas aquilo que ela era na fase anterior, se desenvolveu e se aprimorou ou NÃO. Mas, vamos acreditar no aprimoramento de uma fase para outra, se assim o é, o que éramos quando criança, não deixou de existir, foi apenas desenvolvido e aprimorado e nos levou a adolescência e assim por diante. Não é uma nova fase, é apenas o desenvolvimento e o aprimoramento de uma fase anterior e que as carências mudam.  As carências de uma criança, não são as mesmas carências de um adolescente. Como as carências mudam, muda a escala de valores.


Bem, seguindo nessa esteira de pensamento, no que diz respeito à pós-pandemia, será que nomear a fase pré-pandemia de velha e a fase pós-pandemia muda alguma coisa? Se for em termos de temporalidade, houve uma fase pré-pandemia.  E por que a fase pós-pandemia será nova? Não tenho dúvidas de que quando nomeamos, temos a ilusão de que capturamos o objeto e apontamos para a função dele: caneta, caneca, carro etc. Mas, no que diz respeito a vivências e movimentos humanos, será que temos possibilidade de agir da mesma maneira? Não acredito. Tudo no mundo são interpretações e assim sendo, o que irá determinar a fase que virá a posteriori, será resultante de como cada um viveu a fase de exceção, as circunstâncias que serão produzidas como resultantes dessa interpretação e que interfere na vida em sociedade. 


O que há são circunstâncias que poderão ou não levar as pessoas a refletir seu posicionamento diante de si mesmo e diante do mundo, a mudar suas carências e, por conseguinte, mudar sua hierarquia de valores. Antes da pandemia, de forma simplista, primeiro a “sociedade” submetia o ser ao ter – cartão de crédito internacional, boas roupas, último modelo de iPhone e assim por diante. Num segundo momento e somado ao consumismo, não bastava submeter o ser ao ter, ele precisava ter visibilidade. Como nos diz Bauman (2001) no mundo contemporâneo, invisibilidade é sinônimo de morte.


A pergunta é: será que com a pandemia o ser conseguirá se livrar das garras do ter? Será que a humanidade conseguirá submeter o ter ao ser? Tenho certeza que alguns conseguirão. Já outros, tenho minhas dúvidas. Bem, se valor é tudo que supre uma carência, esperamos que, a carência humana seja pelo aprimoramento humano enquanto pessoa e enquanto personalidade e que o ter não passe de uma mera contingência. Mas, isso é só o que eu gostaria.


(*)Psicanalista, professora do curso de Psicologia e Coordenadora da Pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase nas Perspectivas Breves da UNIFASE.

 

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