O dinheiro destinado às bets não estava apenas deixando o orçamento das famílias: em muitos casos, estava substituindo gastos do dia a dia. É o que mostra uma nova pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, divulgada às vésperas da Medida Provisória, editada na sexta (25), que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. Para a Câmara de Dirigentes Lojistas de Petrópolis (CDL Petrópolis), os dados ajudam a dimensionar o potencial de recuperação do consumo com a mudança.

Segundo o levantamento, 43% dos apostadores afirmam já ter aberto mão de algum item de consumo para destinar dinheiro aos jogos. Entre os gastos sacrificados estão internet (15%), contas básicas de água, luz e telefone (13%), passeios em família (12%), vestuário (12%) e alimentação fora de casa (12%). A pesquisa mostra ainda que o gasto médio mensal com apostas chegou a R$ 213.

Em Petrópolis, uma projeção baseada em levantamento anterior do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ) aponta um universo potencial de cerca de 63 mil moradores que já podem ter participado de apostas on-line. O cálculo considera a população estimada de 278 mil habitantes e aplica a proporção de 22,7% identificada pelo estudo na Região Metropolitana do Rio.

“Quando a aposta passa a disputar dinheiro com a compra de uma roupa, uma refeição, um passeio em família ou até com uma conta básica, fica claro que não estamos falando apenas de uma nova forma de entretenimento. Existe uma parcela da renda das famílias que está deixando de cumprir outras funções. A expectativa agora é que parte desse dinheiro possa permanecer nos orçamentos e voltar a circular no comércio e nos serviços”, afirma o presidente da CDL Petrópolis, Cláudio Mohammad.

A frequência com que as apostas entram na rotina também chama atenção. De acordo com a pesquisa, 62% dos apostadores jogavam pelo menos uma vez por semana, incluindo 11% que afirmam apostar diariamente. Além disso, 23% dizem ter investido valores que comprometeram a renda ou o bem-estar financeiro. Para 25%, o comprometimento chegou ao ponto de deixar alguma conta sem pagamento para apostar, enquanto 24% afirmam já ter tido o nome negativado por gastos com jogos on-line.

O levantamento também mostra que o impacto ultrapassa o consumidor individual. Entre os entrevistados que têm filhos de 12 a 18 anos, 10% relatam envolvimento dos adolescentes com bets. Entre esses pais, 70% perceberam algum tipo de prejuízo na vida dos filhos, incluindo sinais de dependência, endividamento e uso de dinheiro da família sem autorização.

Para a CDL Petrópolis, os números ajudam a explicar por que a discussão sobre as apostas também passa pela capacidade de consumo das famílias. “O comércio não precisa apenas que o consumidor tenha dinheiro, mas que esse dinheiro esteja disponível para circular. Se uma renda que antes era direcionada às apostas passa a ser usada para pagar compromissos, comprar produtos, contratar serviços ou simplesmente recompor o orçamento, temos uma possibilidade concreta de recuperação do consumo”, avalia Cláudio.



Número de apostadores atingiu 50 milhões de pessoas nas capitais
A pesquisa da CNDL e do SPC Brasil identificou 50 milhões de apostadores nas capitais brasileiras, 10,5 milhões a mais que no levantamento anterior. O estudo aponta ainda que 37% dos apostadores já tentaram parar ou reduzir a frequência dos jogos sem conseguir. O PIX aparece como principal meio de pagamento, utilizado por 78% dos entrevistados.
“Agora, com a proibição, começa uma segunda etapa, que é observar o que acontece com o dinheiro que deixa de ser direcionado para as apostas. Não se trata de imaginar que todo esse recurso automaticamente será transformado em consumo. Mas, se uma parcela permanecer com as famílias, reduzir dívidas e compromissos atrasados e recuperar renda disponível, isso poderá ser sentido também nas lojas, nos serviços e em toda a cadeia econômica”, analisa Cláudio Mohammad.

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