Mais do que levar atividades
da universidade para dentro de uma comunidade, a extensão pode ser uma forma de
construir conhecimento junto com quem vive no território. É com essa
perspectiva que a UNIFASE desenvolve, desde 2014, o Projeto de Extensão Vale do
Carangola, em Petrópolis. Os estudantes extensionistas participam de ações
junto aos moradores, em um trabalho que tem como ponto de partida a escuta e o
diálogo com a comunidade.
"Esse é um território
muito importante para a formação das nossas alunas e dos nossos alunos. Nesse
tempo de presença cotidiana, a gente percebe que o território também ensina.
Existe uma partilha de conhecimento e de experiências, mas o aprendizado que vem
da presença, do compromisso com as lutas do território, do diálogo e da escuta
dos moradores é muito importante e bonito de ver. Os relatos que os alunos
fazem depois dessa experiência são muito bonitos. É essa a importância de
projetos com essa característica na formação: abrir um ciclo em que extensão,
pesquisa e ensino caminham juntos", explica o coordenador de extensão da
UNIFASE, Ricardo Tammela.
A relação foi se fortalecendo
ao longo dos anos e as ações passaram a ser construídas a partir das conversas
com lideranças e moradores. As equipes percorrem as ruas e servidões do bairro,
conversam com as famílias e identificam demandas que podem orientar novas
iniciativas. A proposta é que as necessidades percebidas no território também
façam parte da formação dos estudantes.
Durante a pandemia de
Covid-19, essa relação ganhou ainda mais intensidade. Diante da situação de
insegurança alimentar enfrentada pelas famílias do bairro, a equipe se
mobilizou para arrecadar cestas básicas e apoiar moradores. A ação da moeda
social #pratododia também surgiu nesse contexto, com o objetivo de combater a
insegurança alimentar e fortalecer a autonomia das famílias.
A saúde também se tornou uma
das frentes de atuação a partir das necessidades identificadas pelos moradores.
Entre as iniciativas desenvolvidas estão ações voltadas à saúde da criança e da
mulher, com atividades de orientação, acompanhamento e atendimento. A
experiência mostrou aos extensionistas como questões relacionadas ao acesso aos
serviços de saúde e às condições de vida do território estão diretamente
ligadas ao cuidado da população.
Na área da educação, o projeto
também desenvolveu um preparatório para o ENCCEJA voltado para mulheres, com
conteúdos necessários para a prova. O fortalecimento dos vínculos com a
comunidade também esteve presente na iniciativa "Cartas do Vale",
criada a partir da solicitação de uma liderança comunitária. A proposta
aproximou crianças do bairro de pessoas dispostas a participar da campanha e
criou uma experiência de troca de cartas, para além da tradicional arrecadação
de brinquedos.
Conhecer o território
significa ampliar a compreensão sobre as necessidades de uma população para
além de diagnósticos ou indicadores. Situações relacionadas à mobilidade,
acesso aos serviços, condições de moradia, saúde e alimentação passam a fazer
parte do olhar dos estudantes durante a formação.
Um exemplo está na realidade
de famílias que enfrentam dificuldades de acessibilidade no próprio bairro. Em
uma das situações acompanhadas pelo projeto, está Sandra Leila Lima, que mora
no Vale do Carangola há 41 anos, que relatou as dificuldades para sair de casa
com o filho, que possui síndrome de Down e limitações de locomoção.
"Quando chove, fica muito
difícil sair de casa. A gente acaba ficando preso, porque o caminho fica
complicado, principalmente para quem tem dificuldade de locomoção. E não sou só
eu, outros moradores também passam pela mesma situação. Quando chove, muita
gente prefere não sair", disse Sandra.
A situação mostra como
compreender o cuidado exige olhar também para as condições do território e para
os obstáculos que interferem diretamente na vida das pessoas.
"Isso impacta a formação
dos nossos alunos, não para que eles assumam um papel que é do Estado, mas para
que, como aliados da comunidade, possam pensar junto com moradores e lideranças
em estratégias para buscar políticas públicas mais efetivas e uma maior
presença do Estado no território", ressalta Ricardo.


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