Mais que uma crise climática,
as alterações de temperatura intensificadas pelo El Niño podem significar um
importante alerta para a saúde vascular. Durante os períodos de calor
prolongado e atípico, as queixas de inchaço, dor e sensação de peso nas pernas tendem
a se multiplicar nos consultórios médicos. Segundo o Dr. André Marchiori,
cirurgião vascular do Hospital Santa Teresa, a situação requer atenção
redobrada para não evoluir para quadros graves, como a trombose venosa
profunda.
"Todo calor extremo gera
uma série de modificações na nossa vasculatura, entre elas a vasodilatação.
Quando há um aumento expressivo da temperatura corporal, ocorre a vasodilatação
periférica: o rosto fica mais avermelhado e o tronco e o dorso concentram maior
circulação superficial, permitindo que o sangue busque resfriamento pelo
contato externo", explica o cirurgião vascular.
A vasodilatação periférica é
uma reação natural do corpo para resfriar os órgãos vitais, o problema é que
esse aumento do fluxo periférico também se estende aos membros inferiores, onde
a circulação venosa já enfrenta a barreira natural da força da gravidade.
"Em muitos pacientes, em especial naqueles que já apresentam algum grau de
insuficiência vascular, esse processo resulta em retenção de líquidos, formação
de edemas e agravamento da sensação de peso e inchaço", completa o Dr.
André Marchiori.
Se o inchaço já gera incômodo
considerável, a desidratação decorrente do calor intenso introduz um risco
ainda mais grave à saúde. Composto por cerca de 80% de água, o corpo humano
depende do equilíbrio hídrico para manter a circulação fluida. Logo, a perda de
líquidos por meio da transpiração, em situações de calor extremo, representa
perigos também à circulação.
O cirurgião vascular ressalta
que o sangue sofre alterações físicas diretas, se tornando mais viscoso e
espesso. "Essa viscosidade elevada é um dos principais fatores
desencadeantes de trombose venosa. A desidratação torna o sangue mais espesso,
com menor velocidade e capacidade de fluxo nos vasos, aumentando de forma
significativa a probabilidade de formação de trombos em comparação a um sangue
devidamente hidratado", adverte o especialista.
Para quem lida com hipertensão
arterial e depende de fármacos diuréticos, o alerta é ainda mais urgente, já
que muitos desses pacientes apresentam comorbidades que causam lesão
endotelial, uma das principais causas da trombose. Além disso, os diuréticos,
apesar de auxiliarem no controle da pressão, podem elevar a viscosidade do
sangue, comprometendo assim a circulação.
Entre os sinais que merecem
atenção imediata e justificam atendimento hospitalar:
- Edema assimétrico: uma das pernas nitidamente mais grossa ou inchada que a outra;
- Alteração térmica e eritema unilateral: vermelhidão e aumento de calor local concentrados em apenas um dos membros;
- Dor desproporcional: sensação aguda de peso, rigidez ou dor localizada em apenas um dos lados.
O que funciona de verdade:
mitos e condutas eficazes
Um dos pilares de prevenção é
a elastocompressão. Pacientes com indicação de meias elásticas que sofrem com
as temperaturas elevadas, especialmente trabalhadores que passam horas em pé em
ambientes sem ar-condicionado, não devem abandonar o tratamento por conta do
desconforto com o calor. “Nesses cenários, a orientação ao paciente é buscar
meias desenvolvidas para climas quentes que mantêm a compressão necessária, mas
com menor retenção de calor e maior adaptabilidade à pele", recomenda o
Dr. André Marchiori.
No cotidiano, a busca por
alívio também pode levar pessoas a recorrerem a fórmulas caseiras, como cremes
mentolados e duchas geladas. O angiologista do Hospital Santa Teresa, no
entanto, faz questão de diferenciar sensações paliativas de benefícios
anatômicos concretos. O uso de cremes à base de mentol apenas estimula
receptores sensoriais periféricos, criando um reflexo neural temporário que
"distrai" o cérebro quanto à sensação de cansaço. As duchas frias,
por sua vez, provocam vasoconstrição momentânea e trazem frescor passageiro,
sem capacidade mecânica de recuperar a competência vascular em médio e longo
prazo.
"A medida caseira mais
eficaz consiste em fazer pausas programadas para manter os membros inferiores
elevados. Essa conduta pode e deve ser aplicada no dia a dia, inclusive durante
intervalos no trabalho, sendo benéfica tanto no calor quanto no frio. A
elevação atua a favor da gravidade, permitindo que os líquidos retidos nas
extremidades desçam naturalmente em direção ao tronco, facilitando de fato o
retorno venoso", conclui o médico especialista.
O Dr. Marchiori recomenda,
ainda, realizar a avaliação individualizada com um cirurgião vascular para
definir o melhor tipo de conduta em cada caso. Seja pelo uso de medicações
orais específicas para o tratamento de patologias venosas, seja por
meio de medidas caseiras ou pelo uso da elastocompressão.

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