| Artista em seu ateliê em Petrópolis / Foto: Divulgação |
Exposição segue até 17 de maio
O artista de Petrópolis Bruno Weilemann Belo é um dos 20 convidados a reinterpretar obras de Jean-Baptiste Debret na mostra "Debret em Questão — Olhares Contemporâneos", em cartaz no Museu do Ipiranga, em São Paulo.
A mostra, dividida em dois blocos,
reúne pranchas litográficas da
série Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834–1839), nas quais Debret
registrou aspectos do cotidiano do Rio de Janeiro imperial, com destaque para
as relações sociais, o trabalho e a violência estrutural da escravidão, e obras
de 20 artistas contemporâneos, entre eles Bruno Belo, em releituras desses
registros do pintor francês que ajudaram a moldar parte do imaginário sobre o
Brasil e suas populações no século 19.
A intervenção de Bruno Weilemann Belo
Bruno Belo, que iniciou sua
trajetória artistica como autodidata e mais tarde aprofundou sua formação na
Escola de Artes Visuais do Parque Lage, participa com a obra "marque par
une image d'enfance", criada a partir da gravura "Cabocle: Indien
civilisé", de Debret. Em sua criação, o artista mantém a investigação que
marca sua produção: a reconstrução fragmentada da memória e das narrativas
visuais.
"A obra nasce a partir de
duas pinturas que recriam a imagem do indígena retratado por Debret. Realizadas
em telas separadas, as figuras são executadas de forma extremamente delicada,
com grafite em pó aplicado com pincel de silicone. Essa primeira camada, de caráter
efêmero, é então fixada e selada por uma superfície espessa de resina, que ao
mesmo tempo protege e isola a imagem, como se fosse um tempo guardado sob outra
matéria", explicou Bruno.
Sobre essa camada, o artista
pinta uma nova superfície em tinta a óleo, mais abstrata, com cores que sugerem
uma paisagem em formação. As duas telas são então montadas como um díptico, um
único trabalho no qual os indígenas aparecem espelhados, criando uma tensão
visual, como se um gesto se projetasse em direção ao outro. A partir daí, o
artista finaliza o processo de pintura, mas não a construção da obra. Em uma
ação, agora mais próxima da performance, inicia um procedimento semelhante ao
de um restauro.
"Esse momento é quase de
uma escavação. No lugar dos pincéis, utilizei ferramentas como martelo,
lâminas, formão e fogo. É como se eu buscasse reencontrar a figura que estava
ali desde o início. A resina pintada se parte em cacos, peles, abrindo frestas
e buracos que deixam a camada inicial voltar à luz", revelou o artista.
A cada vez que a obra era
exposta, o processo era retomado, resultando em uma pintura que se apresenta
como descoberta: uma superfície composta por fragmentos e histórias sobrepostas
— cacos, plástico, memória, grafite, óleo e tela.
A obra faz parte do acervo da
Aura Galeria (SP), que representa o artista no Brasil, e foi indicada para
compor a exposição Debret em Questão.
Mostra coletiva em Miami
Bruno faz parte de um seleto
grupo que integra a mostra coletiva "Material Cartographies"
organizada pela Aura Galeria, em Miami. Com texto crítico de Larry
Ossei-Mensah, a exposição, aberta no dia 29 de janeiro, leva aos Estados Unidos
os trabalhos de 12 artistas representados, vindos de diferentes regiões do
Brasil, além de Portugal e da Argentina.
As obras de Bruno apresentadas
na mostra integram sua pesquisa desenvolvida nos últimos anos, em torno do
Cerrado brasileiro. Nelas, a paisagem reaparece como matéria, assumindo uma
fisicalidade própria. O artista utiliza uma técnica autoral que, além da tinta a
óleo, leva outros elementos, como cargas minerais e materiais naturais - alguns
deles coletados no próprio Cerrado, resultando em uma superfície densa, outra
vez formada por múltiplas camadas.
| Exposição Debret Em Questão - Olhares Contemporâneos / Foto: Flavio Freire |
Trajetória do artista
Nascido no Rio de Janeiro,
Bruno veio para Petrópolis com poucos dias de vida, onde seus pais viviam.
Autodidata no início da carreira, morou na cidade até os 18 anos, quando se
mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou arquitetura e urbanismo e
posteriormente atuou como professor da disciplina de desenho no mesmo curso.
Posteriormente ingressou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Na capital
fluminense, viveu parte importante de sua trajetória artística antes de
retornar à Petrópolis.
O que inicialmente parecia um
afastamento do 'circuito' acabou se tornando fértil: foi no ateliê da serra que
ele passou a trabalhar com madeira, ferro e objetos que hoje compõem sua
pesquisa híbrida entre pintura, escultura e processos de desconstrução da
imagem.
"É bom estar aqui e
também estar com a cabeça longe daqui. Abre-se um espaço para outras
ocorrências", frisou o artista.
| Trabalho em exposição na mostra internacional “Material Cartographies”, em Miami / Foto: Divulgação |
Sobre a exposição Debret em Questão
A mostra integra a Temporada
França–Brasil 2025, que celebra 200 anos de relações diplomáticas. Antes de
chegar a São Paulo, uma versão reduzida foi exibida na Maison del’Amérique
Latine, em Paris. A curadoria é de Jacques Leenhardt e Gabriela Longman, em
continuidade ao livro Rever Debret (Editora 34, 2023).
“Debret em Questão — Olhares Contemporâneos” fica aberta ao público até 17 de maio de 2026, de terça a domingo, das 10h às 17h, com entrada gratuita.

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